quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O Estado da crise

Estou a fazer um breve interregno das merdas pessoais e sociais para me debruçar (e desabafar) o que me incomoda nos dias de hoje. A crise do subprime e outros nomes finos que lhe têm dado.

Por mais voltas que se lhe dê, lex parsimoniae (ou Occam's razor) funciona muito bem para a análise resumida e breve do que se passa ou passou.

Na minha opinião, são 3 os grandes factores:

1. A ganância de ter de cada um de nós. Mais casas, mais carros e status social. A pressão que existe para mais crédito resulta directamente da obtenção de mais bens ou experiências (como as férias).
2. A ganância financeira - não houve limites para o negócio a fazer com créditos, não houve controlo do endividamento nem da qualidade desse endividamento por parte dos bancos e instituições financeiras.
3. Por último, a fraude. Alguém a cometeu, por incompetência ou por puro oportunismo criminoso, mas o que é certo é que valorizaram-se activos pobres (agora são tóxicos segundo o novo jargon) como se fossem diamantes. Vender merda como pérolas.

Ainda hoje ouvi um comentário que os derivados financeiros eram as armas de destruição maciça dos mercados financeiros. Uma completa burrice - não são os derivados que são a arma, é quem os faz e aprova com ratings de risco subvalorizados. Outras aberrações surgirão no horizonte, culpas de governos que apostaram no mercado mais liberal, etc, etc. Acredito mesmo nos 3 factores que enunciei.

E agora pergunto-me... Em relação ao 1, não há nada a fazer - nós somos assim, motivamo-nos demasiado pelo efémero, deixamos o futuro para um desastroso logo se vê.

Em relação ao 2, pode-se falar em regulação mas é impossível controlar os milhões de produtos financeiros que existem e continuarão a existir. É humanamente impossível fazê-lo e a única coisa que pode ser imposta é a responsabilização, quanto mais não seja pelo cap inferior ou superior de perdas e mais-valias, sendo o excedente assumido por quem emite tais títulos, fundos, etc. Esta pode ser uma entre muitas que surgirão de futuro.

Do pouco que li de Karl Popper, que por sinal acho um verdadeiro génio lógico a dissertar sobre diversas questões, o que é importante para a democracia são as instituições que garantem o contra-poder e que a perpetua mesmo quando elegemos incompetentes ou déspotas. Tem que se seguir o mesmo rumo para todos os mercados porque hoje em dia qualquer um pode ter um impacto brutal em toda a gente.Basta recordarmo-nos da bolha virtual e o que aconteceu...

Com tudo isto, regojizamos a morte definitiva do liberalismo, tal como se celebrou a morte do Marxismo-Leninismo como ideologia válida (no sentido prático e não conceptual), em termos políticos e económicos. In Medio Stat Virtus, como diria Aristóteles (mas em grego claro!). Claro que isto era colocado no sentido ético e a extrapolação para outros campos é perigosa. Mas creio que a história nos mostra que politica e economicamente, esta é uma luz orientadora a seguir, à falta de paradigmas vindouros que consigam arranjar alternativas diferentes nos eixos que nos temos movido.

O último ponto é o que me tem metido mais nojo para ser sincero. Mesmo na falência, os executivos do banco Lehman Brothers palmilhavam por milhões para garantirem os seus golden parachutes. O CEO que levou à bancarrota compareceu perante a comissão do Senado triste e aborrecido, com o cú assente em mais de 300M USD acumulados durante os seus mandatos. Foda-se!

Eu não sou comuna. Mas acredito que deve haver diferenciação pelo mérito e pelo trabalho em conjunto com justiça social. O mundo não pode fabricar dinheiro através dos bancos centrais e aumentar a despesa pública com participações (ou controlo total) de instituições falidas sem que haja consequências civis e criminais perante tal falta de vergonha e moral. Nem podemos nós, classe média, aguentar com a merda feita, vermos os PPRs e outras míseras poupanças a encolherem a olhos vistos e sem alternativas viáveis. Quantos aos pobres... Nem sei. Correndo o risco de proferir uma alarvidade, acho que a classe baixa nem percebe e nem é afectada para já - só quando o desemprego subir é que vão notar mais na pele...

Temos que assumir sem medo e preconceito que este tipo de vencimentos e atitudes desplicentes e "superiores" têm que ser consideradas más para a sociedade e portanto devem ser punidas. Nem falo no sentido ético porque acho que é demasiadamente redutor para perder tempo com isto.

A legislação e a punição nela inscrita devem afirmar um sentido de moralidade perante a sociedade. Estes indivíduos têm que ser justamente julgados tal como o é um médico que é negligente ou um engenheiro incompetente que mata milhares por erros de projecto de construção civil. Tal descalabro mundial tem que responsabilizar os CXOs das instituições que nos levaram a este ponto. Se o fizeram na Enron, que o façam agora. Enquanto há provas. E ainda estou para ver quando é que a bolha do futebol rebenta a sério - o paralelismo simples a fazer é entre a valorização exorbitante dos jogadores com a mesma estúpida valorização feita no imobiliário, em conjunto com a capacidade de pagar dívidas. Não deverá faltar muito tempo.

Aguardo por isto, desejando que o vírus Português da impunidade não se tenha tornado uma pandemia.