segunda-feira, 28 de abril de 2008

Às vezes faz bem

Não sei se alguém já disse isto mas escrever limpa a alma. Principalmente quando existem temas que são difíceis de falar com outra pessoa, ou serem interessantes ou até haver uma ideia do que se quer falar. Por vezes é importante deixarmo-nos vaguear sem grande sentido de fim, só mesmo para ver o que pode acontecer, onde o espírito nos leva.

Daí ter pensado em fazer um blog. Não só posso rever online a verborreia que verterei aqui sempre que me apeteça como até pode algum infelizardo tropeçar nas minhas tristes divagações mentais. E o registo das reacções e ideias adicionais talvez sirvam para alguma coisa.

Não vou falar sobre mim porque isso pouco interessa. Para isso, temos 5 em cima, caras de livro e outros sites que o fazem bem melhor. E onde obviamente estou! Aliás, não estar é quase como não ter telemóvel, os outros não sabem que existimos. E isso é quase como não existirmos, pelo menos aqui no nosso pedaço de terra.

Hoje não sei se tenho pachorra para vaguear sobre alguns assuntos que me apoquentam sem ser um mais simples e linear - alguns valores actuais.

Os valores, a moral, o sentido de bom e mau sempre foram vistos por diversos prismas filosóficos e religiosos que sempre tentaram, e diga-se que conseguiram, orientar o comportamento individual para que, no conjunto das pessoas, esses comportamentos atingissem um objectivo. Por vezes os objectivos estão de acordo com o bem estar individual ou da sociedade, por vezes eram (e são) fruto de mentes sábias que apenas querem atingir fins políticos e de poder.

No entanto, se filtrarmos um pouco esta núvem de pó, existem alguns valores que têm sido enraízados que me fazem muita confusão, pelo menos por cá. O sucesso e a sua medida (muitas vezes apenas em relação a dinheiro e bens) é um dos que me faz espécie, em particular nas diversas vertentes em que se apresenta.

Uma das vertentes é o ar. O ar altivo e pouco humilde, o famoso ar de "cromo" com que muitas vezes nos deparamos na rua, nas revistas e televisão. É curioso porque em termos humanos, o ar altivo é pouco empático, cria inclusivamente aversão. Então, porque é tão usado? Mais, porque é que sabendo nós que há pessoas cujo sucesso sobe demasiado à cabeça e tornam-se pouco humildes e têm comportamentos mais "chocantes", continuamos a incomodar-nos com isso? Penso que tem a ver com o facto de não lidarmos bem com a aparente minimização daquilo que somos, do que conseguimos atingir e do que queremos (ou não) ser. É uma minimização aparente porque de facto não temos normalmente a oportunidade de sequer interagir pessoalmente com os "bons".

Mas para além da minimização aparente que auto-infligimos, há a questão social. De facto, mesmo querendo acreditar que o sucesso é sobretudo individual e avaliado face aos objectivos que traçamos para nós próprios (ou para filhos, etc), há a questão da validação desse sucesso perante a sociedade. A validação faz sentido e é essencial em relação a comportamentos desviantes (ex: um serial killer ter sucesso nos seus objectivos é, digamos, mau para todos nós) mas a validação vigente, baseada no que são os valores de hoje em dia, é completamente anuladora do que deveria ser a medida de sucesso pessoal. Esta deveria ser tão importante quanto a pessoal mas não é. O que é importante hoje em dia é ser-se conhecido, ter (muito) dinheiro, estar rodeado de pessoas bonitas e/ou ricas e voilá, tem-se um monte de carbono cheio de sucesso. Isso sim, é que é bom.

Acho que isto não pode levar a um sítio muito agradável. Até porque, muito à custa disto, ouvem-se histórias de divórcios complicados por causa de meia-dúzia de tostões, tenta-se atingir este sucesso a todo o custo recorrendo-se a burlas (seja ao estado ou individuais), amizades e sociedades desfeitas para ganharem mais uns cobres, etc. O valor monetário do que quer que seja baixou. E é curioso como a possibilidade de pormos um valor nas coisas intangíveis ou impossíveis (como amor, amizade, etc) nos pode dar uma medida da importância. É interessante tentar-se pôr esse valor, mais, é possível chegar-se a um valor.

E como se dá a volta a isto, se sequer for interessante para a sociedade mudar tal estado de coisas? Sim, porque pode não ser interessante já que se virmos bem, este modus vivendi dá dinheiro (e sucesso) a muita gente.

Sinceramente... Não sei. Eu pelo menos "luto" todos os dias para viver melhor com o meu sucesso medido independentemente da régua de outros. Nunca achei que a via Marxista de luta de classes e tudo igual para todos seja a resposta, aliás como a história provou, mas a medida certa está em cada um, nunca esquecendo que vivemos com e para outros, ao invés do liberalismo e do "cada um por si". Como é que se pode incutir tal espírito, caso esteja correcto? E caso esteja correcto e todos decidam que sim, este é o caminho, como mudar o status quo?

Pois... Também não sei! Mas sei que vivo melhor.

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