Este é um tema que me é caro de alguma forma. Os interesses que falo não são os políticos ou empresariais mas sim os pessoais.
Para enquadrar este tema é importante definir o interesse de uma pessoa. Da forma que eu o vejo, é algo semelhante à motivação mas no sentido que leva a uma acção específica, num período específico. Por exemplo, eu motivo-me pelo sucesso mas o interesse em determinada pessoa que me pode dar mais poder não é constante apenas por essa motivação. Eu motivo-me por me sentir amado mas isso não significa que tenha interesse em ficar sempre com determinada pessoa só para que isso aconteça.
Sinceramente não sei se esta definição será correcta do ponto de vista lexical, psicológico ou outro qualquer mas faz-me algum sentido. O interesse desvenda a motivação mas esta não determina todos os interesses.
Falar de interesses sem falar em motivações é, por isso, como falar de um cão e ignorarmos a raça, ou o que é um cão. Por isso ser rídiculo, debrucei-me um pouco sobre as motivações de hoje.
Há e acho que sempre haverá imensa discussão de como classificar as motivações, necessidades e consequentes impactos no registo de uma personalidade. No entanto, por falta de conhecimento técnico e porque também não acho relevante para o caso, creio que é mais útil falar do que nos motiva na sociedade actual que conheço. Creio que o mais curioso é que as motivações são as mesmas de há séculos - ser bem sucedido na vertente social, através da riqueza material e de estrato e ser bem sucedido no amor (ou sexo). Claro que há mais e felizmente nem todos se regem só por estas mas é para mim óbvio que sem as motivações básicas qualquer homem ou mulher parecem uns perfeitos anormais.
Não acho que estas motivações por si sejam más - acho que sem elas provavelmente não haveria progresso nem seres humanos passado uns tempos. O que é curioso é a forma exarcebada como se manifestam em diversos comportamentos humanos e interesses que são criticáveis, sejam eles velados ou por demais visíveis. E esta importância para mim vem de 3 factores - inaptidão de resistência à forte pressão social, educação dos pares (pais, tios, amigos, etc) e por fim, mas às vezes a mais importante, o medo pessoal (e não de rejeição social) do insucesso em concretizar as expectativas que cada um cria por si. Por outras palavras, o medo de ser um merdas.
Normalmente chamam-se a pessoas interesseira aquelas que mostram por demais as motivações básicas - sucesso profissional e/ou pessoal. Vêmo-los atarefados a engraxar pessoas que não gostam, a rodearem-se de pessoas que dão jeito e a fazerem coisas que até podem vir a gostar mas que inicialmente permitem é um conjunto de situações que podem potenciar sucesso (veja-se o sucesso do golf p.ex.). É também frequente que os mais ineptos mostrem demasiado a superficialidade com que fazem tudo isto ou até como pela frente estão divertidos e empenhados, quando por trás só dizem mal. É uma hipocrisia só.
E não deixa de ser curioso como a minha Mãe sempre me disse por outras palavras (e quão pouco dei importância a isto quando era mais novo) que o interesse move o mundo. Somos todos interesseiros, dirão os mais cépticos ou que se sentem particularmente alvo da crítica. Pois somos. Mas nem todos se movem de uma forma egoísta, como os que tenho falado.
É importante fazer a seguinte observação - eu acho que a hipocrisia é um mecanismo humano essencial para a sobrevivência na nossa sociedade. Assim como o é a mentira. Nós rimo-nos das gaffes de uma criança de 3 anos mas acharíamos piada às mesmas atoardas vindas de uma pessoa com 30? Seria normal para alguém desta idade virar-se espontaneamente para outra que conhece mal e dizer "cheiras mal como a ETAR da 24 de Julho"? Claro que precisamos disto mas precisamos de o fazer o menos possível. E preferir o silêncio (omissão) ou a honestidade relacional à mentira e hipocrisia.
É mais criticável na minha opinião o interesseirismo (se é que isto existe no dicionário!) por via do aceitar que esta é a melhor ou que é o caminho que sempre me ensinaram. É apenas uma pena que haja quem o faça por causa do medo. Isto porque para mim, quem opta por não reflectir e mudar é preguiçoso ou acredita mesmo que a vida é assim. Às vezes o medo não nos permite optar, tolda-nos as acções, elas existem fruto do subconsciente ou porque não se consegue fazer melhor, mesmo que se queira muito e conscientemente.
Claro que há sempre solução. Mas também há a outra face - como lidar com o interesseiro? Eu optei, conscientemente, pela via mais fácil e talvez mais parva - para interesseiro, interesseiro e meio. Se alguém quer a minha companhia por alguma razão e se eu não tiver nada de interessante para fazer ou caso me interesse algo dessa companhia, sabendo à partida que é (ou provavelmente é) por interesse, siga a marinha. Dou aqui o exemplo da companhia mas o leitor azarado deste blog (ou seja, eu!) pode sempre aplicar este raciocínio para qualquer tipo de interesse.
Do ponto de vista curativo, esta abordagem é merdosa. Ninguém consegue curar uma gripe com outra gripe. Mas sinceramente, quero é que eles (os interesseiros) se fodam. Já estou como o João César Monteiro, é verdade, mas esta expressão é poderosa. E verdade seja dita, estava mortinho para arranjar uma desculpa para escrevê-la!
Isto tudo é uma pena. Há pessoas interesseiras que são fantásticas nos outros aspectos. Ricas intelectualmente, queridas, bonitas, enfim, um mimo. Que grande pena... mas de facto não interessam a ninguém que consiga ver este fundo e que perceba que isto só lhe pode fazer mal. Eu pelo menos sinto isso e evito ao máximo afeiçoar-me. Ocasionalmente é-me impossível não gostar e muito de alguém assim mas nestes caso tento não iludir-me. E escrevo para não me esquecer disso. Caso um dia... me esqueça.
No fundo, até acredito que eles se apercebam do que fazem. E espero que compreendam um dia que a amizade sincera e às vezes o amor é que aproximam as pessoas, as tornam... boas. Para todos à volta e ao próprio. É que o interesseiro, no fim do dia, pode ficar apenas na companhia de outros iguais, nem que seja uma multidão.
Que é o mesmo ficar muito só, no meio de muita gente.
E acho que esse é o pior medo que há. Pelo menos para mim. Hei-de escrever sobre ele.
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